A arte de emoldurar

Por que escolhemos as imagens que escolhemos?
Por que as colocamos em lugar de destaque nos espaços que habitamos?
Que relações estabelecemos com a contemplação cotidiana dessas imagens?
Há algo revelador nestas questões.

A percepção e o valor de uma imagem se modificam essencialmente se ela é um papel meramente colado na parede ou algo cuidadosamente emoldurado. É como o corpo e a roupa. Relações de complementariedade.

A prática de emoldurar está intimamente ligada à história da arte e ao próprio reconhecimento do que é arte ou, num sentido mais amplo e contemporâneo, das imagens que escolhemos destacar em sua imanência e transcendência.

Desde a Antiguidade, foi na Arquitetura que as pinturas e entalhes encontraram os ornamentos, muitas vezes indissociáveis das próprias obras. Seja como representação simbólica, ilustração, narrativa visual ou elemento decorativo, o trabalho dos grandes criadores buscou sempre como destacá-los.

A arte sacra, com seus altares, retábulos e painéis, elevou a arte de emoldurar a patamares inacreditáveis de sofisticação e técnica. As cortes europeias e a burguesia que as acompanhou e sucedeu promoveram esse recurso ao limite, como símbolo de status e magnitude, inaugurando o caráter moderno da arte.

A moldura, como elemento da arte, ainda que coadjuvante, demarca o espaço, direciona o olhar, destaca, contextualiza ou contrasta a substância das obras, como um recurso estruturante. Mesmo com a flexibilização dos suportes que marcou o século XX, o papel da molduraria continua, mais do que nunca, relevante, ao dialogar com as tendências e projetos de arquitetura e design.

Enquanto isso, a reprodutibilidade mecânica e a replicação digital das imagens não foram capazes de destituir a aura que a obra de arte original carrega, mesmo que seriada em tiragens limitadas. Pelo contrário, com a banalização das imagens, essas escolhas se tornaram muito mais relevantes e significativas, conferindo exclusividade e sendo capazes de dar personalidade e ocupar lugar importante nas relações que estabelecemos com os objetos que, mesmo depois da virtualização de quase tudo, continuamos a guardar.

Curadores, colecionadores, arquitetos, designers de interiores e decoradores cada vez apostam na revalorização da insubstituível experiência de incorporar obras de arte originais a seus projetos, bem como harmonizá-las com a diversidade de recursos da molduraria. E, por sorte, o contemporâneo trouxe uma maior democratização no acesso à obra de arte, antes restrita às igrejas, palácios e museus.

O dia a dia de uma loja de molduras revela, nas escolhas de cada pessoa, as identidades, personalidades, afetividades e a dimensão simbólica de nossa época, de nosso modo de vida e, portanto, de nossa cultura.

Em uma era de reproduções que desbotam e se esvanecem com as mudanças do tempo, faz todo o sentido resgatar a exclusividade, o prazer, a conexão que uma obra de arte original possibilita e emoldurá-la a contento. Mais do que nunca, aquilo que nos torna humanos e únicos estará fixado nas superfícies que habitamos.

Ric Peruchi

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